segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Silêncio

real em luz que invade a casa
meu rosto o vento humildemente acaricia
das etéreas bachianas 
o olhar para fora, o coração atento
respirando a existência do menos
não sendo
ele me manda ter coragem
eu simplesmente obedeço
preciso experimentar
Isso não é dor é pulsar
é amar no vazio que se propõe em silêncio
é cavalgar na incerteza
no eterno despertar
é aceitar o passado
presentear no ato
deslizando na inconstância daquilo que ainda
não está pronto, é raro efeito
amordaçados pensamentos que ecoam
varrendo folhas passadas
libertando os sons que falam
dando vozes aos desenlaces
recebendo um dia seguinte de sol
onde se possa repousar
deixando o silêncio resolver o verso...
desfazendo as canções
florescendo no refazer de cada uma
de cada duas, de cada três
em cada passo um peço
uma súplica muda, um  me calo
recebo a dor e a suavidade
de existir
em mim 
mesma
a luz invade a casa
e meu rosto suavemente acaricia
dando som as mais etéreas bachianas 
olho para fora, atenta
preciso experimentar
respirando a existência do ser menos
não sendo
quem me manda ter coragem
simplesmente obedeço
preciso experimentar
amar no vazio que se propõe em silêncio
cavalgar na incerteza
eterno despertar
preciso experimentar
em ato
daquilo que ainda apronto
raro efeito
ecoam versos varrendo folhas passadas:
libertando os sons
vozeando os desenlaces
em mais um dia em sol maior
onde eu possa repousar
no silêncio que resolve o verso...
faz canções
floresce 
refaz
muda, calo
suave
de insistir
em mim 

mesma

quarta-feira, 9 de maio de 2012


Todos os barulhos aqui dentro e lá fora me assustam muito. Pareço ser a única estrela solitária deprimida acordada em toda a cidade do Rio de Janeiro. Prefiro jogar fora todo o resto de crendice assustadora que habita em minha adolescência nunca concluída.
Sinto muito medo. Medo das vozes que escuto lá fora e das que ouço aqui dentro de casa. 
A solidão me enche de pensamento negativo. Ou os pensamentos negativos me enchem de solidão? Eu sei que me sinto um saco. O mal do século. A núvem negra que paira no alto das zilhões de cabeças espalhadas pelo Planeta. No alto não, dentro, fora, ao redor. O zumbido que não cala: a própria maldita e desdita depressão.
Escrevo porque aqui dentro de mim tem uma pequena luz que insiste em viver e aqui também há escuridão, muita escuridão. A mais linda companheira dos infelizes.
Eu sou muito medrosa, nasci assim. Medo de polícia, de ladrão, de estuprador, de homem lutador de jiu jitsu, de mulher bonita demais. Sou uma verdadeira cagona.
O que me salva é o meu bom humor que não existe, mas que dá as caras aqui a essa hora para me salvar a pele de mais um pensamento negro.
Não quero ser preconceituosa, deixando bem claro que a cor negra reflete a sombra e a clara a luz, e que nada disso tem a ver com a cor da pele das pessoas. Deus não existe (é preciso usar disso como método) e não determina as injustiças sociais, e o demônio não confunde certas coisas, justificando assim a sua inexistência. Está tudo aqui, nesse saco de carne humana.
Aqui dentro penso que lá fora é o tal mundo dos espertos, dos leves, e dos bem humorados. Eu invejo muito os espertos bem humorados. Lembrei agora pouco de um livro de auto-ajuda que dizia sermos parte de nossa identificação, como aquilo que você inveja no outro, você reconhece porque tem dentro de você, ou é uma característica sua, sei lá, algo assim pra consolar.
Mas é preciso ser sábia e pegar algumas pitadas daquilo que te favorece quando se está na merda. Na merda= estar se sentindo uma merda. Será que ninguém e nenhum momento do dia vira pra si próprio e se sente uma merda?Ou então, quando não vira para si próprio, mas olha do lado de fora do carro, ou da janela de algum lugar, e não se sente uma merda por estar em um mundo de merda??Eu ouvi algo assim bem desumano dias desses de um músico muito sensível e fiquei apavorada, mas ele talvez nem saiba que seu ofício o coloca em uma posição privilegiada, a arte é a sublime sublimação do espírito.
O espírito não é livre, não há uma hierarquia do espírito. Eu não consigo aceitar o fato de que algumas pessoas que se dediquem mais horas ao dia para respirar e aceitar sua existência sejam mais felizes do que outras que não tem tempo nem pra respirar, que pega uma condução lotada, que não tem nem dinheiro pra comer; que esses avatares do espírito sejam os privilegiados em glória de cotas de alegria e de possibilidade de redenção. está todo mundo na mesma merda. Vivemos em grupo. Vamos então parar a roda, entrar ali na casa do vizinho e respirar a mesma merda de ar que sufoca o peito.
Dia desses minha mãe rindo nervosa disse que quando era adolescente e sentia raiva (não me lembro do que) gritava nas janelas para os vizinhos ouvirem, dizia que ela estava me matando, que tudo isso estava acabando comigo. Tudo isso o que? A vida, as pessoas, a maldade humana?
Daí conheci as gargalhadas, os amigos, as bebedeiras, a música, e vi que tudo podia ser um pouco mais leve e divertido. Sorri para vida incerta e cambaleante.
Namorei com um, com outro... conheci o primeiro príncipe encantado, era casado. Conheci um que era um guerreiro e que não podia deixar se abalar por alguém tão medrosa. Descobri mais uns três cavaleiros errantes e fiz um filho com um deles. Percebi que a história é da carochinha e que como em um carrossel iluminado, no centro a princesa é um pouco mais baixa e gorda e que o príncipe, lindo e promissor se esfacela em mil pedaços de carne morta quando sai do meio da roda que não para de girar.
Talvez o momento inicial de um relacionamento seja assim, como num brinquedo que roda freneticamente dando borboletas no estômago e fazendo frio aonde não se deve ousar. Mas aí o vestido se abre, junto com todas as outras coisas e os olhos se fecham, pois é assim que aprendemos a nos entregar. 
Eu burlei a cartilha, percebi que a princesa não deveria se manter virgem, deveria se manter menos princesa. 
Fui, cega, surda e muda, como os três clássicos macaquinhos. Hoje guardo no meu peito a mágoa de uma breve vida e um medo de roer os ossos.
Quanto ao sucesso, a baixa-auto estima, a capacidade de realização...Acho tudo isso uma grande merda. Bom mesmo é saber olhar sem deixar ver tudo, saber provar sem engolir a seco a massa preparada de solidão. mastigando, cheirando, sentindo o que é bom pro paladar. Mais que isso, é preciso rejeitar certas guloseimas que a vida nos oferece fartamente.
Pios que isso é se deixar levar pela crença de que há algo maior e melhor e que realizando tudo com o devido jeito se pode evitar certos fracassos. Os fracassos são feitos de matéria de fracasso, não são evitáveis, são concretos e indigestos.
Como a história do músico que desistiu de ser músico ao perceber que seu instrumento rangia, quando jurava para quem estava ali, pra ver e ouvir, que o dele não o fazia. Foi logo no primeiro toque que a teoria da probabilidade cega havia sido confirmada. E o sorriso não o salvou, a vergonha ou a crença de que o seu era o pior de todos os instrumentos o fez desistir. 
Talvez seja preciso evitar o rangido estridente das cordas, mas quem sabe seja através desse pequeno desapontamento sonoro que possa estar a chave para a aceitação de que algo range sim, que é meio feio mas faz parte da arte de quem quer tocar a vida para frente. E a vida é tudo isso, desejo de ser, de estar e de tocar.

domingo, 1 de abril de 2012

Mais que perfeito


No encaixe perfeito simplesmente descanso
Debruço minhas mãos em cada pequeno abismo quente do seu corpo
E bem quieta fico por lá... suspensa
Em um tempo outro que veio desde que enfim te percebi
No encaixe perfeito sou mais mansa e dançarina
Espreguiço em seus braços e suspiro em seu hálito doce, morno
Agitada ergo o corpo, estico em arco, ajoelho e caio, na ponta dos pés...
No encaixe perfeito riu descaradamente
Escancarando uma alegria exagerada
Desmonto, e de novo, em cada palma reencontro...
No encaixe perfeito brinco de peixe, de mar, de princesa e de pescador
Mergulho em um oceano infinito
E no escuro de cada universo que visito
Sonho acordada sonhos sentidos...
No encaixe perfeito monto e remonto em peças meu corpo
Recubro de beijinhos cada parte desmontada do seu corpo
E remonto o meu no seu
E você remonta o seu no meu...
E em um encaixe mais-que-perfeito tento soletrar versos mudos 
Calando seus olhos nos meus,
Colando o seu corpo no meu
Juntando as partes justas que andavam soltas por aí...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

melancólica


a solidão me deixa absorta em pensamentos sombrios
o véu da melancolia cobre meu corpo
e apaixonada, apago-me por aí
como num borrão, inacabado
numa fenda lírica e melancólica
destoante e embriagada
morro de amor de mim mesma
morro de raiva e de inquietação
o ópio das horas
a cachaça poética da madrugada
o som da viola emocionada
tudo parece um filme
sem roteiro
sem personagem principal
um sonho espiral, em quadrinhos foscos, acinzentados
a solidão dos ossos no passar vagaroso das horas...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Recomeço


É difícil escolher um caminho, talvez a loucura não seja mesmo uma opção. Assim que me vejo amedrontada, tendo que arrumar as malas e partir para mais uma aventura, penso estar deixando para trás uma infinidade de sonhos,roupas que não me servem mais, histórias mal contadas repletas de palavras mal ditas.
Deito no chão, sinto o frio do sinteco, arrasto meus ossos, balanço de um lado pro outro meu quadril, erguendo as pernas, abraçando os joelhos nos peitos. Talvez as lágrimas possam lavar minha alma das dores da separação.
Um raio de sol bate nas roupas e cintila a liberdade de um novo começo...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sem medo


Sinto um grande alargo na alma, como se algum deus tivesse me concedido a sorte de apreciar de perto a paleta que mistura e tonaliza as matizes desse fosco mundo.
O mundo e suas obrigações. ...Meu coração disparou e é certo de que esse não é o sinal do fim, da morte próxima...Vida...coragem...escuto e repito...
Hoje falei com uma amiga que não mora por perto e que me acompanha há tempos, que havia me separado, eu disse em uma curta frase: conheci outra pessoa.
Ela riu, gargalhamos ao telefone: Amiga, achei que você fosse chorar, já estava aqui me preparando para te consolar, para servir de psicóloga...E você me conta essa surpresa. Posso dizer, que foi a melhor da semana.
Falamos do tempo, da passagem e dos acontecimentos, do início e do fim, e ela terminou dizendo que estava contente de saber que eu continuo sendo a mesma de sempre, que se joga e vai, sem medo... Fiquei feliz de saber um pouco mais de mim...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

ensaio bagunçado


Os homens choram no chuveiro, no travesseiro, na chuva, enquanto as mulheres choram na cama, na rua, no táxi, lavando louça, esfregado chão, amassando pão. A massa fermenta e cresce com nossas dores, nossos amores, nossos desejos e nossas frustrações. Aos do sexo masculino foi dada a dura tarefa do silêncio frente às suas dores. A nós mulheres, restou a histeria e os hormônios.
Como iremos nos relacionar? Como entender e aceitar nossa constituição feminina? Sabemos que não somos determinadas biologicamente, mas também reconhecemos os fatores expressivos, passíveis de incansáveis repetições, o nosso modo de ser feminino, que talvez possa ser uma enganação ou no entendimento dos letrados: a expressão plural de uma identidade compartilhada. Como seremos amados (porque é essa a questão) por nossos parceiros do outro sexo? Pensando nas diferenças dentro de uma relação com os do mesmo sexo, ou nas tantas outras formas de uniões da contemporaneidade. Pensando e aceitando as diferenças, esse é um bom caminho.
Nós mulheres, bebemos nossas dores na mesa de um bar, traímos nossos parceiros mentimos, enganamos. Ao mesmo tempo somos carinhosas, cuidamos, trabalhamos, contemos nossas lágrimas, pois, o mundo deve continuar rodando e, parece que dessa vez, a roda está emperrada... é preciso de reforço no empurra. 
Em outras paragens estávamos espalhados em nossas obrigações, segregados em nossas tarefas, alienados de nosso quereres. Fomos sós, guerreiras incansáveis, caçadoras, parideiras, fortes mulheres de caça e prontidão, enquanto os homens (que não eram nossos) estavam em outras bandas, conquistando outros lugares, providenciando   multiplicações... 
E o amor, será invenção da igreja também? Porque o casamento, a família, a moralidade sim... as torturas, os juízos de verdade, a doutrinação do pensamento, a ordem dos corpos, as  punições severas pela via da repressão das paixões... A igreja é responsável pela maioria das atrocidades.
Depois entra a justiça segurando as duas balanças, ajudando a casar, a legitimar a propriedade privada, a dizer até onde a gente pode ir, limitando nosso espaço, cerceando nossos corpos (mais uma vez), impedindo a iniquidade?
O racionalismo, a retórica, a política, o capitalismo, o normal e o patológico...Tudo amontoado, girando a roda ao mesmo tempo, impedindo o homem de matar, de roubar, de querer, de sonhar e de lutar pelos seus sonhos.
Homens e mulheres: devem amar, respeitar e glorificar as dádivas de um deus morto.
Abram a água do chuveiro para lavar a alma cansada e maltratada de todos os dias, arregacem as cortinas e deixem o sol penetrar pelas frestas de nossas almas, nossos espíritos, nosso-qualquer-coisa que se queira chamar de insondável e  de indizível que é o ser humano.
Abram as palavras ao tempo que nunca se esgota, senhor que aquece e acalanta as errâncias, as efervescências e os desvarios. Mulheres e homens, choram seus filhos nascidos, seus dias de luta e de submissão. Homens e mulheres choram à pobreza, à miséria, à fome, à  cruel desigualdade social... 
O amor talvez seja o ópio que inebria, o porteiro do tempo que abre a represa, que alaga e irriga as plantações. Aos filhos, o fruto do nosso trabalho; aos amigos, a alegria das nossas horas de ócio; aos nossos dias de luta, toda a nossa devoção...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O homem que eu quero


O homem que eu quero mora longe
Dorme em uma cama de passado
Não conheço sua história
Imagino, fantasio, percebo
Ainda não ouvi de suas palavras
Ele me faz sonhar 
Deixa meu corpo à espera, quente, febril
Veio até minha vida como um furacão
Derrubando tudo...
Irei à ele como uma brisa suave e perfumada
Levando frescor e uma promessa
Coragem pra fazer valer duas vidas
Quem sabe...
Fecho os olhos e sinto seu gosto 
Não lembro direito do gosto
Tento lembrar
Não consigo
Ainda não provei 
Sonho acordada como nos tempos de escola
Faço planos, desisto deles
Torço pra que ele tenha coragem de voar
Talvez façamos algo grande
Quem sabe um pequeno...
Sussurrando baixo alguma coisa boba
Cantando mal uma canção tola
Mostrando meu corpo nu
Pulando em cima dele
Sinto essa vontade irresistível...
... Pular em cima desse homem...
.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

LUA PRATEADA


LUA PRATEADA DEITA NA ENCOSTA
SOSSEGA SUAVE NA NUVEM ESCURA 
LENTAMENTE SE MOSTRA E DESNUDA Salvar como rascunho
AFAGA A COPA DAS ÁRVORES AO ALTO DA MONTANHA 
VAGAROZAMENTE SORRI E RETIRA SEU VÉU
BALANÇA COMO NUMA VALSA AO SE RECLINAR NA PAISAGEM
UM SUSPIRO, UMA RESPIRAÇÃO
DECLINA, SE RETRAI CALMAMENTE
ADEUS SUAVE, PERFUME CÁLIDO... AMANTE SE VAI
DEIXA UM RASTRO, UMA LEVE LUZ ESBRANQUIÇADA
UM ENTORNO, UMA PROMESSA... 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Desejo II

Ele chegava por trás e pedia cigarros, com a voz grave  e rouca, esperava que todos saíssem da sala de aula para que pudéssemos nos abraçar. Eram breves momentos encantados. Ele sentava atrás de mim quando todos chegavam e sussurrava mais uma vez por um cigarro. Eu metia a mão em um saquinho que ficava pendurado na minha ergométrica e puxava um 'branquinho' pro forte príncipe adocicado. Tinha bicicleta, televisão e saquinho de cigarro em sala de aula. Ah, e príncipe encantado sussurando melado no meu ouvido, me abraçando quente na hora do recreio.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Desejo

Acordei de um sonho ardendo em desejo na carne
Marcada estava eu perdida por um olhar que me comia e me queria
Ele era forte, espalhado, grande e desengonçado
Me olhava nos olhos e vinha em minha direção com uma certeza
No final daquilo tudo eu seria sua
Me possuiria como numa noite que jamais teria fim
Numa direção sem volta
Num eixo sem rota
Maremoto de mim mesma, me entregaria nua aquele conhecido atraente
Dançava enlouquecida como em um videoclip
Não era esse o meu videoclipe
Nesse eu era apenas figurante de mim mesma
Entre tantas outras mulheres iguais dançava entre sedas e poses
Um dançar duro, uma fala dura
Uma cabeça que só girava por dentro
Por fora dura
Mas sai de cena e assim pude sentir de novo a pele ardendo
O desejo o desejo o desejo
Andei atônita querendo sair dali
E um homem me seguiu
Apertou meus seios com as mãos
Dizia que eram perfeitos
E que talvez pudéssemos nos encontrar mais adiante
Eu me sentei ao lado de outro homem
O desejo se virou e troçou dele,chamando-o de caricatura literária
Senti meu corpo arder mais ainda de desejo
E acordei
Perdida em meu umbigo

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pássaro-mulher

Como uma deusa ela se mostrou desencantada em cima de uma árvore. Pássaro-mulher, desceu suave, olho nos olhos. Eu mostrei os braços e ela esticou suas garras afiadas, alisando-me suave, como se fosse pluma…Deu 1/4 de giro e tocou minhas costas…
T E M P O     D E          S E R
Todos se calaram e a bela ave me encantou. Pude finalmente voar, como numa dança. Eu sabia e era toda; revelada, feminina.
Uma sensação indescritível ver o mundo de cima, bailando deusa numa dança sagrada.

Pude ver calmamente o escuro de mim mesma.
E digo sim, poucas palavras, para os que querem ouvir o calar do tempo, a ternura suave de um acalanto, a beleza da alma feminina:
Sentir o corpo em dança, o vento suave na paixão de existir. Fechar os olhos, abrir ao espírito. Deitar no vento morno, na calmaria ancestral, na torrente amorosa do tempo de estar.
Sagrada estação da lua nova. Encho o peito de ar e sopro o eterno que habita o feminino selvagem dentro de mim mesma. Para fora de mim. Uma prece obscura e pagã.

terça-feira, 21 de junho de 2011

surfe

Desconsertada
Desconcentrada
Centrada em um desvio de mim mesma
Palavra que corre solta
Pensamentos que escapam
Não penso em desistir
Mas no momento parece difícil lutar
Acho melhor abrir um livro e flutuar
Quem sabe volte logo e tome o prumo
Sossego o desvario
Pode ser que demore e eu me perca no caminho de volta
Talvez perdida encontre o barco e retorne ao porto
Não posso fugir disso que me toma

quarta-feira, 1 de junho de 2011


Acordei de um susto. Levantei e a primeira coisa que fiz foi me certificar de que meu coração ainda estava batendo. O dia foi longo e cansativo o ritmo forçado tinha acelerado demais meu pobre coraçãozinho. Acordei de um susto, durante a noite e percebi que as coisas estavam diferentes. Meu peito vazio, um buraco. Era como se o aquela aceleração tivesse cessado, mas ao mesmo tempo algo doía dentro do buraco no peito. Era como se tivessem cavado um buraco no meu peito. Pensei que talvez tivesse exagerado na janta e, desarranjado de vez aquele pobre relógio que batia incessante, descompassando e compassando minha existência. Despertei triste, desacelerada, com medo. Imaginei que talvez tivesse chegado a hora de atravessar a ponte da saudade. Olhei para o lado me certificando que tudo continuava do mesmo jeito. Será que a derradeira é realmente como alguns acreditam; em um primeiro momento,da mesma forma que aqui? Será que serei avisada de que chegara o meu fim? Preferindo certamente ser avisada por uma figura angelical, por um signo de amor e de luz; nada de foice, capa preta. Resolvi levantar, esticar as pernas, beber um copo dágua e enfrentar a notícia avassaladora do vazio do meu coração.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

tom maior

feita de uma nota a cor permaneceu muda
sombria e fosca jamais ousou entoar em outro tom
perdeu-se no emaranhado de si
ensimesmada
deu o tom
deu-se dois, três
por fim fizeram um acordo:
-acordamos juntas que a natureza morta não existe
brincamos no silêncio entre pausas e rodopios
desdobramos em mel, em dias
e assim floresce em nossos rodopios a canção
de um cinza fosco ao matiz mais quente…

em tom maior
de mim
menor


terça-feira, 3 de maio de 2011

de repente...

Jurema resolveu ousar. Colocou aquele vestido vermelho escondido no fundo do armário e foi circular
sozinha pela Lapa. O que haveria causado aquele impulso estilo dama da lotação?Ela não se perguntou e mal teve tempo pra ouvir seus pensamentos, eles estavam amortecidos por uma dose de destilado, tomada antes de bater a porta de casa.
Saiu faceira, rebolativa e sorridente. Parecia mesmo uma menina(nada de lotação).
Esbarrava nas pessoas e sorria, ao invés de desculpas. Atravessava as ruas cintilante, dava boa noite pro policial, pra moça triste de pé em frente da farmácia.
Subiu como uma princesa os degraus da escadaria da gafieira. Tropeçou na entrada e foi amparada por Jorge.
Jorge e Jurema dançaram a noite inteira. Ao final da última música, ela pediu licença, agradeceu a companhia e saiu correndo em direção a escadaria. Jorge não pode nem mesmo pedir seu número, seguir seus passos. Ela sumiu. Como num conto de fadas.
Jorge voltou pra casa arrastando os sapatos, pisando no rabo do gato, chutando lata amassada. Nunca havia visto uma mulher como aquela. Como sobreviver a isso sem ao menos um beijo de despedida?
Jorge chegou em casa sorrateiro, para não acordar o velho que dormia no sofá e pensou que na próxima talvez tivesse um pouco mais de sorte e, quem sabe o destino lhe fosse generoso, dando a graça de mais uma dança com aquela dama desconhecida de vestido vermelho.
Jurema voltou pra casa urgente, era preciso encerrar a noite daquele jeito mágico que havia começado. Pendurou o vestido, tomou um banho delicioso e foi pra mesa da cozinha tomar um xícara de chá antes de dormir.
Tudo parecia fácil demais, seus pensamentos continuavam ausentes, era como se devesse estar ali, naquele momento, só seu.
Deitou-se na cama e vagamente a imagem de Jorge circulava em sua cabeça. Sentia o toque suave e firme de suas mãos a guiando pelo salão. O sorriso cativante que a desconsertava nas horas em que perdia o prumo e pisava ligeiramente envergonhada em seus pés.
Aquela era um noite especial, jamais havia saído sozinha de casa, determinada e feliz. Esperava sempre o convite, o telefonema que não vinha. Dessa vez era sua a noite e quem sabe da próxima pudesse compartilhar com alguém aquela sensação maravilhosa de estar solta e desamarrada de expectativas. Fechou os olhos, esqueceu suas orações e adormeceu suave e alegre.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Sorrindo


Um sorriso é aceso, vivo, contexto, é caminho a ser 
Os olhos  perseguem um belo curso que se abre em um viçoso sorriso
Assim como se desviam de uma lacrimosa passagem
... Córrego assustador esse da tristeza...
Mas eu vim aqui pra falar do sorriso.
Já sentiram um coração pulando, espumando e jorrando quente, como se acendesse lá em baixo no dedão e ascendesse lá pra cima, no topo da cabeça?
Retrato em movimento, força exuberante e vital
Um sorriso compartilhado, motivado e sonorizado por uma estrondosa gargalhada...
Brotado pequeno, infâme e provocativo
Na penca da alma desabrocha um sol
Presença desavisada da felicidade, alegria desvairada
Fome de viver, sede de amar
Talvez o sorriso não seja nada disso
Apenas uma janela que se abre aonde a alma se enquadra sem propósito de estar apenas de ser: um belo, alegre, despretensioso sorriso...

domingo, 24 de abril de 2011



Em caixa alta pra ver se pego no tranco
Completa incompetência em administrar meus desejos
Deveres e Direitos
O caos
Energia dinâmica
Transformadora
Da lama ao caos
Escatologicamente suja
Percebo as primeiras informações vitais pulsantes